15 de fevereiro de 2016

posseiro

terra abandonada,
era eu:
sem nada
que brotasse naquele solo gasto

tu chegaste,
calado,
como quem
- sem querer -
dá um susto
!
mas como quem logo em seguida
amansa
           com um beijo doce
           na pontinha dos lábios

ali,
logo na esquina dessa vida,
era eu:
avessada,
devoluta,
quando não quis mais nada disso que dizem amor

mas ali,
logo na esquina dessa vida,
tu chegaste pela janela
quando eu já tinha fechado todas as portas

foto: Flor Garduño

9 de dezembro de 2015

Marcas

a gente fala
e eles também nos dizem
a gente toca
e é tocado
tudo acontece
como num grande eco
a gente se comove
e move o outro:
ele também nos move,
nos comove,
e assim,
caminhamos juntos
abraçamo-nos
no reconhecer
(o tempo engole muita coisa
faz da gente mais forte
e mais flexível também
as marcas ficam
e nos ensinam
o caminho)



23 de julho de 2015

Julho, ventos e chuvas

amores-ventos, 
ventam:
refrescam,
arrepiam,
passam
              - passarão,
                         passarinho -
vão e vem
feito balanço de rede
trazem a chuva
e inundam,
transbordam
(como quase tudo no mês de julho)
fazem brotar flores
fazem restar flores

levados no embalo dos céus,

como sementes,
brotam nos peitos que se permitem

e ali florescem

com a chuva que cai
e por ali se espalham
com o vento que vai

clique e ouça

e
restamos
e
sumimos 
um 
dentro
do
outro

11 de maio de 2015

Tudo são olhos

janelas
e portas
:
tudo são olhos

são entradas
que permitem passagens,
encontros, desencontros
desvios, descaminhos

olhos 
transmutam matéria em incorpóreo,
madeira em alma
e permitem
verdades
sentimentos
transparências

as trocas mais sinceras
sem necessitarmos palavras

janelas 
e portas
:
tudo são olhos 

que invadem
e se deixam invadir

que encontram
e se deixam encontrar

que mergulham no olhar alheio
e viram profundos lagos
esperando que o outro, 
também destemido,
entre
molhe os pés
mergulhe
procure
ache
e
até descubra
como respirar debaixo d'água
porque estando dentro se vê
que amor é fundo, meu bem
- nunca superfície - 
e gasta o ar dos pulmões
mas não se afoga

tudo são olhos 

quando o olho demora noutro
quando a gente se sustenta sem palavras
quando a gente deita no olhar alheio como se fosse rede:

é quando já não precisamos de mais nada

além do aqui
além do agora